Greve dos caminhoneiros: as estradas que levaram a paralisação do país

João Vitor dos Santos
                 

Desabastecimento em supermercados, filas em postos de combustíveis, rodovias interditadas, preços de gêneros de primeira necessidade em alta, hospitais em alerta, agronegócio em alvoroço, essa foi a tônica da última semana no Brasil.

A greve dos caminhoneiros afetou o dia-a-dia dos brasileiros em um roteiro similar a situações vividas no final dos anos 80 e início dos anos 90, quando o país passou por problemas de congelamento de preços e hiperinflação, acontecimentos estes que também provocaram corridas a supermercados e momentos de apreensão por medo de desabastecimento. Mas os fatos que levaram aos atuais acontecimentos diferem bastante do momento vivido no século passado e para melhor compreensão do ocorrido temos de ter ciência de alguns elementos chaves que desencadearam o movimento grevista. Vamos aos fatos …

Estrutura do modal de transporte brasileiro

Fruto de escolhas estratégicas e políticas tomadas na década de 50, o transporte rodoviário é o principal destaque dentre os modais de transportes presentes no Brasil.

A estrutura de transportes por aqui não é lá muito diversificada, o transporte rodoviário responde por cerca de 61% do transporte de cargas no Brasil ,enquanto as ferrovias ficam com 21% e o aquaviário com 14%, segundo dados do boletim estatístico da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) de janeiro de 2018. Isso demonstra o nível de dependência do país do modal rodoviário, que apesar de ter suas vantagens como a flexibilidade de rota e a facilidade na contratação do serviço, conta com um alto custo de frete e baixa capacidade de carga quando comparado aos outros meios de transporte de cargas.

Preço do petróleo no mundo

O preço do petróleo no mundo vem sofrendo alterações constantes desde o ano passado. Em um movimento de alta de preços, o valor do barril saiu de cerca 40 dólares para valores próximos a 80 dólares em pouco mais de um ano. Como reflexo deste aumento, o Brasil observou aumentos constantes nos preços dos combustíveis, que acabou sendo o estopim para a greve dos caminhoneiros. Entretanto, o fato não pode ser encarado como mais uma “jabuticaba brasileira” (expressão utilizada para se referir a algo que acontece somente no Brasil), outros países também estão passando por situação semelhante.

Recentemente o preço dos combustíveis na Índia bateram recorde, além do país asiático, França e Reino Unido também enfrentam situação semelhante. No modelo da Petrobras de reajuste de preços, o valor do combustível está atrelado ao preço do petróleo no mercado internacional, ou seja, enquanto o preço do petróleo estiver alto, o valor final será maior e a empresa não dará nenhuma forma de subsidio para controlar o valor dos combustíveis, por outro lado se o preço do petróleo estiver baixo, o valor dos combustíveis também será reduzido uma vez que a empresa não “lucrará” cobrando a mais do que se é praticado internacionalmente, é uma política justa de cobrança e que não cria distorções no preço dos combustíveis como já foi observado em outras administrações da estatal.

Formação de preço dos combustíveis no Brasil

Com a crescente reclamação em torno da forma de reajuste dos preços de combustíveis adotada pela Petrobras, que passou a adotar reajustes quase que diários baseados na cotação do petróleo no mercado internacional, a empresa se viu obrigada a vir a público e elucidar melhor a formação do preço dos derivados do combustível fóssil no mercado nacional. Vejamos o exemplo da gasolina:

 

Na imagem acima podemos observar o que se paga quando se adquiri 1 litro do combustível. A maior fatia dos componentes que fazem parte do preço final da gasolina são os tributos, CIDE, PIS/PASEP, COFINS e ICMS representam 43 % do preço total do que se é praticado nos postos de combustíveis. É fato que a combinação da alta do dólar com o aumento do preço do barril do petróleo são sem dúvida importantes no preço final do produto e afetam a parcela denominada realização Petrobras, entretanto, essa parte está em linha com que o que se pratica no mercado internacional.

A principal reivindicação do movimento do grevista, foi a diminuição no preço do diesel. No Brasil o preço deste tipo de combustível é dado basicamente por quatro componentes como se observa abaixo:

 

Assim como acontece com a gasolina o preço da realização Petrobras também está em linha com o que se prática em outros países como pode ser visto aqui. A diferença entretanto se dá na tributação, no diesel ela responde por cerca de 27% do preço final do produto, o que torna o produto consideravelmente mais barato que a gasolina.

A Petrobrás e o refino do petróleo no Brasil

Apesar de muito se falar sobre a autossuficiência do Brasil em relação ao petróleo, o país ainda continua importando quantidades significativas do combustível fóssil. Isso se deve em grande parte ao fato da qualidade do produto extraído em território nacional, trata-se de um petróleo dito pesado, variação esta que é mais difícil de ser refinada e é nesse momento em que entra a importação de um óleo mais leve que se junta ao extraído em território nacional para se conseguir o refino do produto.

Como consequência deste processo o preço do produto acaba aumentando. Outro fator importante no contexto de extração e refino do petróleo diz respeito as refinarias e as petroleiras que atuam em solo brasileiro, a Lei do Petróleo de 1997 quebrou o monopólio da extração e refino do petróleo no país, entretanto, o que se observou não foi um aumento grande da concorrência no cenário nacional.

Algumas petroleiras como a Shell, Chevron, Statoil e Repsol atuam ou em algum momento atuaram no país fazendo a extração e produção do petróleo por aqui. Já na parte de refinarias a Petrobras domina o mercado, das 17 refinarias existentes hoje no Brasil, 13 são da Petrobras e elas juntas produzem cerca de 95% da gasolina nacional.

Mas por que motivo isso ocorre?

Um dos principais motivos é o tamanho da Petrobras no mercado Brasileiro, isso lhe garante grande parte do setor assim como o controle sobre ele. Outro fator importante é a presença de ingerências políticas no comando da estatal, imagina você como investidor observar seu concorrente estabelecer preços abaixo de seus custos de produção, essa situação foi observada em administrações anteriores quando o preço dos combustíveis foi subsidiado pelo governo.

Aumento da oferta do frete

O Governo Federal por meio de programa de subsídios em 2009 financiou a compra de caminhões a taxas extremamente atraentes. O que acontece muitas vezes é que subsídios são ineficientes em termos de mercado, eles acabam criando distorções na estrutura do setor, pouco sentidas no curto prazo como aconteceu no Brasil, mas no longo prazo se tornam visíveis. Ao subsidiar a compra de caminhões o governo acabou aumentando a oferta de frete no mercado, o que fez que consequentemente o preço dos mesmos viesse a cair. O resultado não poderia ser outro, o aumento dos preços dos combustíveis atrelado a diminuição no valor do frete, fez com que as margens de lucro dos motoristas de caminhão se tornassem quase inviáveis.

Os caminhos que levaram até a greve dos caminhoneiros nós já conhecemos, mas os problemas que esta greve ocasionou ao sistema econômico como um todo ainda não são todos conhecidos, entretanto, nós podemos ter bons índicios dos reflexos desta greve. Para conhecer os efeitos causados pela greve dos caminhoneiros  acompanhe aqui nossos vídeos em nosso canal no Youtube, aqui e aqui.

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